As academias descobriram o Pilates. E essa, talvez, seja a notícia mais importante — e mais desconfortável — para quem vive de um estúdio.
Por décadas, o Pilates foi território quase exclusivo dos estúdios e das clínicas. Hoje, redes de academia, boxes de treino funcional e estúdios boutique passaram a oferecer aulas de Pilates em grupo e em aparelhos como parte do mix. O formato em grupo é apontado como um dos que mais crescem no mundo fitness — mais acessível, mais dinâmico e fácil de escalar. Para o dono de estúdio que construiu o negócio sobre o método clássico, é uma mudança silenciosa de placas tectônicas: o cliente ganhou novas opções, e a régua da experiência subiu.
O reflexo natural é seguir fazendo o que sempre funcionou. Afinal, funcionou. E é exatamente aí que mora o risco.
A pergunta que a Blockbuster não fez
A Blockbuster foi uma das maiores empresas da história do varejo de entretenimento. Chegou a ter a oportunidade de comprar a Netflix — e não comprou. Anos depois, virou pó. A pergunta que intriga qualquer gestor é: como? Não eram pessoas despreparadas. Pelo contrário, eram executivos talentosos, tocando um negócio rentável e bem administrado.
A resposta mais profunda não é “erraram a tecnologia”. É que eles não mudaram a cultura vencedora. A Blockbuster tinha uma cultura excelente — para o mundo das locadoras físicas. Eficiência de loja, padronização, foco no que já vendia. Esse conjunto de comportamentos a tornou gigante. E foi o mesmo conjunto de comportamentos que a deixou cega para o streaming. Os executivos não “deixaram de acreditar” na Netflix. Eles simplesmente não olhavam para ela. Estavam olhando para as lojas.
Kodak, Nokia e BlackBerry contam variações da mesma história: marcas dominantes que mantiveram a cultura que as levou ao topo mesmo quando o mundo à frente delas já era outro.
Cultura é uma ferramenta, não uma Constituição
Há um conceito de gestão que ajuda a enxergar isso com clareza. Costumamos tratar a cultura da empresa como algo intocável — quase uma Constituição, que se segue o máximo de tempo possível. Mas talvez seja mais útil pensá-la como uma ferramenta a serviço da estratégia. A lógica é simples e encadeada:
- Objetivo: onde você quer chegar.
- Estratégia: por que e como você vai vencer — criando e sustentando vantagens competitivas.
- Cultura: o sistema de comportamentos que as pessoas precisam ter, no dia a dia, para executar essa estratégia.
O ponto-chave: quando o mercado muda, o cliente muda e os concorrentes mudam, o objetivo e a estratégia também mudam. E se a estratégia muda, a cultura — os comportamentos exigidos — precisa mudar junto. A cultura que te trouxe até aqui não é, necessariamente, a que vai te levar adiante. A Blockbuster falhou em fazer essa revisão. Empresas que atravessaram várias ondas de crescimento fizeram o oposto: mudaram a cultura conforme a estratégia e os objetivos mudaram.
O ponto cego do dono de estúdio
Traga isso para o Pilates. Muitos estúdios operam hoje com a mesma cultura — o mesmo sistema de comportamentos — que os fez crescer: atendimento individual ou em pequenos grupos, foco no método clássico, agenda baseada na relação professor-aluno. É um modelo legítimo, que entrega qualidade e construiu reputações sólidas.
O risco aparece quando esse modelo vira o único horizonte. Enquanto o dono olha para a própria agenda lotada — sinal de que “está tudo bem” —, a categoria ao redor se transforma: aulas em grupo de alta performance, experiência mais intensa e instagramável, modelos que escalam com mais previsibilidade e menos dependência de um único professor. Como a Blockbuster diante das lojas cheias, é fácil concluir que não há por que mudar. A ocupação de hoje não garante a relevância de amanhã.
Quando rever o modelo?
A resposta honesta: quando o objetivo e a estratégia mudam — e eles mudam quando o mercado muda. Enquanto você ainda acredita que a estratégia atual sustenta vantagem competitiva, faz sentido seguir a cultura que a executa. No momento em que a concorrência se aproxima, o preço começa a virar critério de escolha e a experiência das marcas passa a se parecer, é sinal de que a estratégia precisa evoluir — e a cultura, junto.
Algumas perguntas úteis para o dono de estúdio fazer agora, sem pressa de responder:
- Qual é o meu objetivo para os próximos cinco anos — e ele é o mesmo de cinco anos atrás?
- Qual é a minha estratégia: por que o aluno escolheria o meu estúdio em vez da academia que agora também oferece Pilates?
- Quais comportamentos da minha equipe sustentam essa estratégia — e quais já não servem mais?
- Estou olhando para a minha agenda, ou para o mercado?
Não é abandonar o método — é evoluir a entrega
Mudar a cultura não significa jogar fora o que funciona, nem trair a essência do Pilates. Significa proteger margem, experiência e posicionamento no próximo ciclo. O método continua sendo o ativo; o que está em jogo é como ele é entregue — com que intensidade, em que formato, com qual identidade e em que escala. A diferenciação deixou de ser um luxo e virou condição de sobrevivência num mercado que ficou mais cheio.
O paralelo com a Blockbuster não é uma profecia — é um convite à lucidez. As empresas que duraram não foram as que tinham a melhor cultura em um dado momento, mas as que tiveram a coragem de revisá-la quando o mundo mudou. No Pilates, esse mundo já está mudando.
Ver como o Pilates em grupo de alta performance responde a essa mudança →
Perguntas frequentes
As academias estão mesmo entrando no Pilates?
Sim. Redes de academia e estúdios boutique passaram a oferecer aulas de Pilates em grupo e em aparelhos. O formato em grupo é apontado como um dos que mais crescem no setor fitness, por ser mais acessível, dinâmico e escalável.
Isso ameaça os estúdios tradicionais?
Não necessariamente os elimina, mas aumenta a concorrência e a pressão sobre o preço. O risco maior é a comoditização: quando a experiência das marcas se parece, o cliente passa a comparar preço em vez de valor.
O que a Blockbuster tem a ver com um estúdio de Pilates?
A Blockbuster perdeu mercado por manter a cultura e o modelo que a fizeram vencer, mesmo com o mundo mudando. É um alerta sobre o perigo de não revisar a estratégia quando o mercado se transforma — o que o Pilates vive agora.
Mudar o modelo significa abandonar o Pilates clássico?
Não. Significa evoluir a entrega — formato, intensidade, identidade e escala — sem abrir mão da qualidade e da essência do método.
Qual o primeiro passo para um dono de estúdio?
Revisar objetivo e estratégia: por que o aluno escolheria o seu estúdio hoje? A partir daí, ajustar os comportamentos da equipe (a cultura) para sustentar essa resposta.
Conteúdo editorial da Live Equipamentos. Os casos de Blockbuster, Kodak e Nokia são exemplos amplamente documentados de empresas que não revisaram estratégia e cultura diante de mudanças de mercado.
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